quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Jornal Tribuna de Itaquá

 O jornal “Tribuna de Itaquá” é parte da história de Itaquaquecetuba, da qual colaborou registrando fatos, opiniões e personagens. Foi fundado pelo jornalista, advogado, vereador e professor Emelson Martins Pereira. Lhe enviei uma pergunta sobre o arquivo do jornal e recebi um depoimento, que reproduzo abaixo. Ilustro a postagem com uma parte da primeira página da edição nº 424, ano XI, de 26 de abril de 1986 (redação, administração e oficinas - Avenida Italo Adami, 45), que registra a depredação de um ônibus coletivo da Viação Itaquaquecetuba, no Jardim Caiuby.

“Meu amigo Claudio Sousa: Meus cumprimentos e parabéns por ter criado a página Histórias de Itaquaquecetuba. Você, com sua cultura extraordinária sempre foi um exemplo de dedicação ao desenvolvimento da cidade. Quanto aos jornais, só tenho um exemplar de 1995 do Diário de Itaquá. Tenho todos os exemplares de 2009 a 2013, quando retornei com o jornal, porém em edições mensais. Infelizmente não deu para recuperar os jornais da Tribuna de Itaquá e o Diário de Itaquá, do período de 1974 a 2000, porque, quando vendemos o prédio e os maquinários gráficos, tivemos que transportar tudo para um galpão no Jardim Adriane. Estávamos para digitalizar todos os jornais. Porém, um temporal destruiu o telhado do galpão e só ficamos sabendo alguns dias depois e lá se foi, destruído pelas águas, nosso arquivo imenso, de 27 anos jornais. 

Acabei de escrever um livro que está prestes a ser publicado em que registro algumas lembranças e artigos dos jornais sobre o período de 1974 a 2000, nas administrações dos prefeitos Pedro da Cunha (72 a76), Gibi (77 a 82), Gumercindo (83 a 88), Toninho da Pamonha (89 a 90), Valdir da Siva (90 a 92), Bill (93 a 96) e Toninho da Pamonha (97 a 2000). A cidade tinha 30 mil moradores quando o jornal foi criado e menos de 15 mil eleitores. Ainda não existia o Parque Marengo, o Recanto Mônica, tampouco a Vila Celeste, a Terra Prometida, ou seja a cidade contava com menos de 20 bairros e vilas. Hoje contamos com mais de 200 bairros e vilas. 

Escrevo também sobre a evolução de jornal, que foi adquirindo aos poucos sua impressora semiautomática, suas linotipos, máquina de fotolito, sua impressora rotoplana e enfim, nos anos 92 e 93 a sua impressora off-set, sua maquina de gravação de chapas para impressão off-set e dezenas de computadores, entrando assim na era da informatização. No período de 1974 a 2000 abordo as obras dos prefeitos nas áreas de industrialização, educação (criação de escolas de 1º e 2º graus, de escolas infantis, creches), saúde (postos de saúde), urbanização central da cidade, asfaltamento de ruas nos bairros, criação de entidades de bairros, transportes públicos, asfaltamento de estradas, etc. etc. Não sei se há alguns exemplares da Tribuna e do Diário de Itaquá na Biblioteca da cidade. Você poderia pesquisar.

Pode ser que exista algum jornal da Tribuna em arquivo digitalizado da Prefeitura de Itaquá, porque publicávamos todos os atos oficiais do município, entre 1977 a 1994. Estou tentando pesquisar também junto ao ARQUIVO DO ESTADO sobre alguma coisa da Tribuna e do Diário de Itaquá, pois enviávamos regularmente todos os exemplares publicados para lá, para a Assembleia Legislativa e ao Palácio Bandeirantes. Acompanhei muito de perto, pessoalmente, o crescimento da cidade, pois lecionei na Escola Italo Adami, no período de 1971 a 1988 e na E.E. Fernando Milano, entre 1988 a 1992. Fui advogado na cidade entre 1988 a 2000 e vereador no mandato de 1989 a 1992 e, finalmente Assessor de Imprensa da Prefeitura, entre 1993 a 1995. Trabalhei como Coordenador de Educação na Fundação Casa, em Itaquá, entre 2003 a 2007.

Sucesso! 

Felicidades!"

sábado, 28 de agosto de 2021

Obeliscos da Vila Monte Belo

 O bairro Vila Monte Belo foi loteado em 1922, em terras do antigo bairro do Pinheiro, que no século XIX fazia parte do Primero Quarteirão da Freguesia de Itaquaquecetuba. Os loteadores Carlos J. Burger e Ernesto Calandra, em 1925 apresentaram uma solicitação para que a estação da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB) recebesse a denominação de “Montebello”. O pedido foi indeferido e a estação recebeu o nome de Engenheiro Manoel Feio.

Os obeliscos do km 30 indicam um marco rodoviário. O trecho até Jacareí da Estrada São Paulo - Rio foi inaugurado em 14 de outubro de 1922. Um dos obeliscos, em formato de pirâmide, foi construído como um monumento em homenagem à abertura da estrada. O “monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado”, de acordo com Lacques Le Gof, como “uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura”. 

Obeliscos Vila Monte Belo (Foto: Cláudio Sousa)

O outro obelisco, revestido por pastilhas num tom de amarelo, cujas placas foram arrancadas, provavelmente deve ser de 1928, quando foi inaugurada a Estrada ligando São Paulo ao Rio de Janeiro. Até a abertura da Rodovia Presidente Dutra, em 1951, a ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro passava por Itaquaquecetuba

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Há 10 anos explodia o “Lixão de Itaquá”

Um desmoronamento estimado em 450 mil toneladas de lixo no Aterro Sanitário administrado pela Empreiteira Pajoan, situado no município de Itaquaquecetuba, ocorrido em 25 de abril de 2011, provocou um dos maiores desastres ambientais no município. A explosão foi ouvida a quilômetros de distância. 

Um ano depois, 2012, caminhões da empresa continuavam despejando lixo no aterro, desrespeitando a interdição do local (Notícias de Poá 26/05/2012). Na ocasião a prefeitura bloqueou o acesso em cumprimento de decisão liminar da Justiça. Porém a empresa vencedora da licitação do serviço de coleta de lixo foi a Eco Espaço, do grupo Pajoan. 

Em 2010, uma Audiência Pública para discutir a ampliação do Aterro Pajoan foi marcada para 25 de fevereiro. Organizada pelo COSEMA (Conselho Estadual do Meio Ambiente) com previsão de 5 horas de duração, iniciando às 17 horas no Parque Ecológico de Itaquaquecetuba.

Com o título “Empreiteira intimida manifestantes”, o Diário do Alto Tietê relatou que “Cerca de 200 funcionários e pessoas ligadas à empreiteira fizeram de tudo para intimidar, encurralar e colocar para fora do local da audiência cerca de 80 pessoas que residem em bairros próximos do aterro (...) sem argumentos, uniformizados e bem preparados, chegaram a gritar ‘fica lixão’, na tentativa de abafar os encurralados moradores que mesmo em menor número em nenhum momento deixaram de pedir ‘fora lixão’”. A empresa contava com a presença de 30 seguranças na Audiência Pública marcada para ocorrer no Parque Ecológico de Itaquaquecetuba. Enquanto isso, de acordo com o jornal, o empresário Carlos Cardoso “fingia que nada estava acontecendo”; o outro sócio e irmão presente era José Cardoso (Zé Cardoso, o “Rei do Lixo”), homem forte no PSDB de Suzano. O governador na época era Geraldo Alckmin, também do PSDB. Uma moradora afirmou: “sabemos que esse pessoal todo deve ter sido comprado e por isso tinham de fazer isso mesmo. Nós estamos aqui porque sabemos dos danos que esse aterro causa a população. Não dá para acreditar num aterro melhor. Ele precisa ser fechado de uma vez” (DAT 26/02/2010). Esses moradores não podiam prever, mas sabiam dos danos ambientais e na saúde da pipulação que o “Lixão de Itaquá” provocava. Algo estava para acontecer daí a exatamente dois meses.

Atendendo a solicitação protocolada pela subseção Itaquá da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) por mandado de segurança, às 16h06 a Justiça determinou a suspensão da audiência. No despacho a juíza citou “o não cumprimento do prazo legal de 20 dias da convocação e a dificuldade de acesso ao Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia-Rima)”.

Em 5 de agosto de 2009 a CETESB interditou o Aterro Sanitário Pajoan. O motivo foi a falte de condições adequadas de segurança. Havia o risco potencial de deslizamento ou desabamento. O funcionamento do aterro, que recebia 2 mil toneladas diárias de lixo, era mantido por intervenção judicial. A CETESB levou em conta dados de monitoramento e parecer técnico do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) que apontavam problemas de estabilidade.

A CETESB afirmou na nota de interdição que a “Empreiteira Pajoan Ltda. tem um longo histórico de infrações ambientais. A primeira multa ocorreu em 17/05/2001 (...) Até 20/07/2009, foram aplicadas 78 penalidades no total de 215.314 UFESPs – Unidade Fiscal do Estado de São Paulo, que em valores atuais somam mais de 3 milhões de reais.” (CETESB 5/08/2009). E ainda indicava o seu encerramento definitivo.

Em janeiro de 2001 a Pajoan assumiu a gestão do aterro. Até então o Aterro Sanitário de Itaquaquecetuba pertencia ao CIPAS (Consórcio Intermunicipal para Aterros Sanitários) e só recebia lixo dos municípios do consócio (Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano, Santa Isabel e Arujá). A multa de maio foi por receber lixo de Carapicuíba. Em 2004 saiu a primeira decisão judicial suspendendo as atividades do aterro iniciando a judicialização que suspendia e depois liberava o funcionamento.


Um deslizamento, em 14 de março de 2000, atingiu dois barracos e uma casa não deixando feridos. A Cetesb aplicou uma multa de R$ 92.700 ao CIPAS, além de exigir medidas para garantir a estabilidade estrutural, contenção e os destino adequados dos líquidos gerados, o chorume (FSP 15/03/2000).

O desastre ambiental e a sua repercussão levou a criação, em 03/02/2014, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Assembleia Legislativa de São Paulo, “com a finalidade de investigar as causas e apurar as responsabilidades pelo desmoronamento de 450 mil toneladas de lixo do Aterro Pajoan, em Itaquaquecetuba”. Entre os seus integrantes estava a deputada estadual Heroilma Soares de Tavares (PTB), ex-esposa e apoiada pelo ex-prefeito Armando do Tavares Filho, “um defensor da manutenção e ampliação do aterro” (Jornal Popular 14 a 20/06/2014). Porém a CPI foi extinta sem a conclusão dos trabalhos (Despacho do Presidente publicado no D.A.L. de 31/10/2014, p. 20). A maioria dos deputados não compareceu às reuniões e a CPI não apurou nem responsabilizou ninguém.


Entre os anos de 2001 e 2011 a Pajoan foi autuada por 91 vezes, entre multas e notificações, por infração as normas ambientais. Um processo continua correndo na Justiça (Processo nº 0005509-25.1998.8.26.0278).

Cláudio Sousa

Bibliografia:

Diário do Alto Tietê

Folha de São Paulo

Jornal Popular

Notícias de Poá

https://www.cetesb.sp.gov.br

http://wikimapia.org

sábado, 3 de abril de 2021

Suzano já pertenceu a Itaquaquecetuba

 Suzano tornou-se município em 1948, mas comemora o seu aniversário no dia 2 de abril, data da posse da primeira Câmara de Vereadores e do primeiro Prefeito eleitos, em 1949. Em 1919 a povoação de Guaió, estação de Suzano, conquistou a criação do Distrito de Paz de Suzano, município de Mogi das Cruzes. A comissão que analisou a representação até levantou a questão sobre qual nome seria utilizado: Suzano ou Guayó?

Estação de Suzano em 1915

A estação ferroviária de Piedade foi inaugurada em 2 de junho de 1890, entre as estação do Lageado (atual Guaianases) e Mogi das Cruzes. A hipótese mais provável é que a denominação está relacionada a Capela Nossa Senhora da Piedade de Baruel, localizada no bairro mais antigo de Suzano. A estação teve o seu nome alterado de Piedade para Guayó a partir de 1º janeiro de 1891, por já existir uma estação com o mesmo nome na Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Nova mudança e definitiva, em 1907, quando a estação recebeu a denominação de Suzano, em homenagem ao engenheiro de EFCB Joaquim Augusto Suzano Brandão.

Lista de Geral dos moradores da Vila da Mogi das Cruzes 1772 (detalhe)



 Nos antigos Maços de População (Arquivo Histórico Ultramarino, Códice 2102), nome dado ao recenseamento da população da Capitania de São Paulo, encontra-se a lista de habitantes da Fazenda do Senhor Bom Jesus de Baruel, de 1772. A localidade era constituída 29 fogos ou habitações. Entre as atividades listadas estão o cultivo de milho, feijão, algodão e mandioca (para fazer farinha); criação de gado, cavalos e porcos; duas mulheres vivam “de fazer Louça da terra”. Na Capela do Baruel havia indígenas na condição de administração particular, a forma utilizada para burlar as leis que proibiam e escravidão dos indígenas. Uma prática comum era a sujeição de índios à uma capela particular. No assento de batismo de 1772, reconstituído e transcrito a seguir, consta o termo “adminis-“ cuja parte seguinte esta corroída no documento, deduzimos serem Angela e Arcangela, mãe e filha, índias sob administração da Capela do Baruel:

  Aos seis dias do mes Mayo de mil settecentos e secenta e nove annos nesta Matris de Santa Anna de Mogy das Cruzes baptizey e pus os santos oleos a Alexandre filho de Angela Solteira filha de Arcangela adminis[tradas?] do Senhor Bom JESUS do Baruel, de pay incognito Padrinhos [corroído] Pereira casado com Francisca Fernandes de Oliveira e [ilegível] Machada viúva de Joaquim [ilegível], freguezes de Sam Paulo e os mais desta Freguezia. O Coadjutor Antonio Xavier de Sales (Batismos Mogi das Cruzes,  familysearch.com)

Durante o período da Regência, em 16 de março de 1832 o Conselho de Estado do Governo Regencial aprovou uma “resolução do Conselho Geral da Província de São Paulo pela qual se suprimem as paróquias criadas nas Aldeias dos Índios” ou antigos aldeamentos indígenas de Pinheiros, Mboy (atual Embu das Artes), São Miguel, Itaquaquecetuba, Escada (atual Guararema) e Itapecerica. Essas paróquias constituíam freguesias, o equivalente a distritos ou subprefeituras. Essas freguesias teriam sido instituídas entre 1803 e 1805. Possuíam Juiz de Paz e um vigário colado ou encomendado (efetivo ou temporário) remunerado pelo governo provincial.

Destes antigos aldeamentos da província de São Paulo, vários deles estiveram em algum momento, durante o período Colonial, sob a administração dos padres da Companhia de Jesus, os jesuítas. Em alguns deles os jesuítas administraram até a sua expulsão, em 1759, foi o caso de Itaquaquecetuba, MBoy e Itapecerica.

A resolução de 1832, aprovada pelo Conselho de Estado, rebaixava as freguesias à condição de Capela Curada, com a retirada dos padres para outras paróquias. Neste mesmo ano o Bispo ordenou a demarcação das divisas da Capela Curada de Nossa Senhora da Ajuda de Itaquaquecetuba. Foi constituída uma comissão responsável pela demarcação formada por quatro eleitores, eleita pela ordem de votação entre os paroquianos com direito à voto, de acordo com a legislação que regulava as eleições primárias. Reginaldo Cardoso [da Silva?] teve 116 votos, seguido de Ignacio Jozé de Miranda com 112, o Alferes Jozé Antonio da Silva com 88 e João Jozé de Araujo com 81 votos.

Capela do Baruel na década de 1980 (Prefeitura de Suzano)

 A divisa de Itaquaquecetuba com a freguesia de Mogi das Cruzes foi definida, em 1832, no ribeirão Jozé Cardoso, o que incluía os bairros Baruel e Guayó. Ou seja, parte da região que daria origem ao município de Suzano estaria subordinada à Capela de Itaquaquecetuba. Tal fato foi motivo de insatisfação dos moradores de Baruel e do Guayó que peticionaram à Câmara de Mogi das Cruzes, que encaminhou a solicitação de desmembramento ao governo provincial. A questão foi resolvida em 1837, com a retificação da divisa pela Assembleia Provincial de São Paulo, com a mudança da divisa para o rio Guaió, que atualmente é divisa entre os municípios de Poá e Suzano.
Cláudio Soares de Sousa

domingo, 6 de dezembro de 2020

A luta pelo transporte coletivo de Itaquá

 Um grupo de 80 trabalhadores do bairro do Pium, depois de esperar por horas e cansados dos atrasos, se revoltou e obrigou o motorista do ônibus da viação Danúbio Azul a levá-los até a Prefeitura de Itaquaquecetuba, para reclamar (Folha de S. Paulo, 23/07/1982).

Em 1987, um grupo de moradores usuários do transporte coletivo resolveu deixar de reclamar apenas durante as horas de espera e de brigar para entrar no ônibus lotado, tomando a iniciativa de organizar um movimento por transporte coletivo. Em setembro de 1989 foi criada a Comissão de Usuários de Transportes Coletivos de Itaquaquecetuba (a primeira Comissão foi criada em Diadema).


Acidente com ônibus da Júlio Simões 05/07/1996 (Robson Medeiros/Folhapress)

Entre essas pessoas, dezesseis aceitaram o desafio de compor a diretoria da Associação de Usuários de Transportes Coletivos e outros Serviços Públicos de Itaquaquecetuba (AUTI), fundada em 24 de junho de 1990. Entre eles Jorge José de Souza, Edna Regina dos Santos, Sebastião Ferreira dos Santos, Rosângela Soares de Sousa e Luiz Mariano de Souza, militantes das Sociedades Amigos de Bairros (SABs), que lutavam por melhorias nos seus bairros com ruas sem pavimentação e esburacadas, falta de água, escolas insuficientes e ausência de Postos de Saúde.

A concessão do transporte coletivo era da Viação Ferraz. O serviço era ineficiente: poucos ônibus, velhos, caindo aos pedaços, lotados e demorados serviam a população de Itaquaquecetuba. Partindo da estação ferroviária do Manoel Feio as linhas Pium, Marengo e Corredor. Do bairro do Rancho Grande (via estação de Itaquaquecetuba) partiam as linhas Village, Hospital, Louzada e Industrial.

Duas tragédias se destacam. Em 19 de maio de 1990, um ônibus da Viação Ferraz, na linha Pium-Manoel Feio, despencou de um viaduto, no bairro do Pinheirinho, resultando em 26 mortos (Tribuna de Itaquá, 26/05/1990). No mesmo local caiu um ônibus da Júlio Simões, em 5 de julho de 1996, deixando um morto e 11 feridos. Em outubro de 1993, a Júlio Simões (atual CS Brasil) encampou as linhas da Viação Ferraz, cuja concessão foi apenas renovada, sem licitação.

 Uma vitória da Comissão de Usuários foi a inclusão de três artigos na Lei Orgânica do Município (1990): Art. 98 instituía a fiscalização popular no transporte coletivo. Art. 99 reconhecia o direito da comissão de realizar suas reuniões e locais que pertenciam ao poder público. Art. 100 garantia a participação na discussão da tarifa “de acordo com o poder aquisitivo da população”, e acesso às informações sobre a operação, controle e planejamento do sistema de transportes no município. 

Publicação oficial da AUTI. Acervo Claudio Sousa

Apesar da Lei, os governos da época não adotaram a discussão da política tarifária, preferindo seguir a tarifa e os reajustes do município de São Paulo. Em 1994, a AUTI questionou na justiça a conversão para o Real; a tarifa que devia ser de R$ 0,43 foi convertida para R$ 0,50, mas acabou ficando em R$ 0,48. O lucro fácil estava garantido com trajetos curtos e ônibus lotados, em contraste com a dura realidade da população local.

Claudio Sousa é historiador e responsável pela coluna Histórias de Itaquaquecetuba

Texto originalmente publicado na coluna Histórias de Itaquaquecetuba, no Jornal Gazeta Regional, edição 294, agosto de 2019.

Itaquaquecetuba há 30 anos

 No dia 8 de abril de 1989 uma equipe da TV Cultura de São Paulo visitou a cidade de Itaquaquecetuba para gravar um programa da série “A Cidade faz o Show”. O palco principal foi a Praça Padre João Álvares. Neste dia ensolarado, a praça estava cheia e os repórteres Eliana Costa e Júlio Lerner conversaram com a população e registraram as manifestações da cultura local.

O serviço de Alto Falantes anuncia as atrações. Um raro registro é o da Festa de Santa Cruz na frente de Igreja. Violeiros a frente, seguidos de duas colunas de dançantes, que batem os pés formando dois círculos. O mineiro José Marinho Ferreira apresenta o “Bumba Meu Boi”: “Eu vim aqui pra dar um passeio [em 1948] e fiquei aqui trabalhando.” Os repentistas Bentinho e Agapito cantam “Sou um moleque feliz morando em Itaquá / As festas do mês de abril, todo mundo vai gostar”.

O chafariz é o local da apresentação da Banda Olho D’Água cantando a música “Divindade”. No Coreto em forma de cogumelo (demolido em 2017), a Banda “Régis e seu Regional” apresenta o forró “Chililique”. O escultor chileno Marcelo Navarro de Stefano mostra seus bustos do jogador Pelé, de Tancredo Neves e do caipira, feitos de barro.

O apresentador Júlio Lerner, com o Coreto ao fundo

O programa visita à sede da Fazenda Casa Velha (demolida pela mineradora Itaquareia), uma casa bandeirista do século 18; vemos o escritório e os livros na estante onde trabalhou o cientista americano Charles H. T. Towsend (1863-1944). A Granja do Mandy na época era especializada na criação de perus. São exibidas fotografias e revistas da época de Charles D. Toutain.

O programa cita o parque industrial da cidade, na época formado por cerca de 350 indústrias e 40 mil trabalhadores. Algumas indústrias são visitadas, como a EMIC (Equipamentos de Máquinas de Ensaio) e a 777 Festas e Decorações.

No sítio Araki, localizado na estrada do Perobal, o japonês Katsuya Haraki apresenta a produção de sua estufa de plantas ornamentais: flor de maio, lírio da paz, violeta e singônio; com destaque para o seu laboratório.

O programa entrevistou desde pessoas simples até autoridades, passando por figuras públicas como Ângelo Guglielmo e o prefeito Toninho da Pamonha. O escritor Renato Ignacio da Silva fala sobre a importância da preservação da Amazônia.

Em 1989, o abastecimento de água servia apenas 30% dos bairros, a rede de esgoto era inferior a 10%, não havia Hospital, nem Pronto Socorro, a mortalidade infantil era de 105 mortos por mil nascidos vivos. Havia a crença de que a indústria era a tábua de salvação do município.

A população local é um mosaico da cultura nacional, com migrantes nordestinos e mineiros. A cultura afro-brasileira também marca presença numa grande roda de Capoeira da Associação de Capoeira Poesia dos Libertos, acompanhada de atabaque, pandeiro e berimbau.

No encerramento, um trecho de “O Barbeiro de Sevilha”, da imponente Banda Marcial de Itaquaquecetuba, que já participava de apresentações pelo país e viria ser campeã estadual e nacional. Assista ao programa: Itaquaquecetuba: a cidade faz o show.

 Cláudio Sousa

 Texto originalmente publicado na coluna Histórias de Itaquaquecetuba, no Jornal Gazeta Regional, edição 288, julho de 2019.

Novembro Negro

 O Novembro Negro têm uma grande importância histórica, por simbolizar as lutas do povo negro contra a escravidão, a exploração e o racismo. 20 de novembro é a data da morte de Zumbi, o líder do Quilombo de Palmares. É a luta da memória e da história contra o esquecimento e o silêncio. As marcas do nosso passado escravista se fazem presentes e devem ser superadas com políticas de reparação e a redução das desigualdades sociais.

São Paulo e Itaquaquecetuba têm em seu passado a escravidão de indígenas e de africanos. Os índios obrigados a trabalhar sob o regime de administração particular eram chamados de Negros da Terra, Peças do Sertão ou Negros do Cabelo Corredio. Os africanos escravizados eram os Negros da Costa ou Negros da Guiné.

No distrito de Itaquaquecetuba, no ano de 1832, o Juiz de Paz José Nobre de Moraes informou o total de 2.590 pessoas, divididas em: 1005 brancos, 102 índios, 1366 pardos e pretos livres, 117 pardos e pretos escravizados; distribuídas em 725 fogos (habitações) e 8 quarteirões (que incluía os bairros Guaió e Baruel, atual região de Poá e Suzano). 

Bumba Meu Boi, 1989

A cultura afro-brasileira foi homenageada com a denominação das ruas do loteamento Residencial Fortuna, nas proximidades do Jardim São Paulo, pela Lei nº 1408, promulgada em 13 de maio de 1993, 105 anos após a Abolição da Escravidão: Rua Xangô, Rua Ogum, Rua Oxum, Rua Iemanjá e Rua Cosme e Damião. Porém, no mesmo ano, na antevéspera do dia 20 de Novembro, foi promulgada a Lei nº 1436, de 18 de novembro, que alterou a denominação de quatro das cinco ruas, para: Rua Barra do Una, Rua Boracéia, Rua Barra do Saí e Rua Indaiá. Permanecendo apenas a Rua Cosme e Damião.

José Marinho Ferreira e Júlio Lerner (1989)  

O folguedo do “Bumba Meu Boi”, cujas origens são africanas, indígenas e europeias; teve início, em Itaquaquecetuba, no ano de 1975. Seu organizador foi o mineiro de São João Del Rei, José Marinho Ferreira que aqui fixou residência, em 1948. Disse ter vindo “pra dar um passeio e achei bom e fiquei por aqui trabalhando”. Na época do Carnaval “só tinha o salão da Dona Adélia [Riechelmann], não tinha nada, então se via o pessoal, quem podia entrava, quem não podia, ficava do lado de fora. Então fui em Minas e trouxe o Bumba Meu Boi”. Em 1976 organizou uma Escola de Samba. Marinho morou no bairro Vila Maria Augusta, sendo homenageado com seu nome na escola do bairro, a EMEB José Marinho Ferreira.

Cláudio Sousa

Texto originalmente publicado na coluna Histórias de Itaquaquecetuba, no Jornal Gazeta Regional, edição 307, novembro de 2019.