segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Saques em 1983

O início da década de 1980 foi marcado pelo esgotamento do Regime Militar (1964-1985), uma profunda crise econômica, altos índices de desemprego e inflação. Em São Paulo, o ano de 1983 foi marcado por manifestações contra o desemprego, a alta do custo de vida e a ocorrência de saques. Na ocasião, uma passeata de desempregados chegou até as portas da sede do governo paulista. “Basicamente toda a classe trabalhadora esta posicionada contra a atual política econômica e salarial do governo”, admite o alto comando do II Exército, no governo do general João Batista Figueiredo. Ocorreram saques e quebra-quebras em São Paulo entre os dias 04, 05 e 06 de abril de 1983.

A revista Manchete publicou na sua edição de 15 de outubro de 1983, ocupando duas páginas, uma fotografia do supermercado Kofu, do Itaim Paulista. O que chama atenção é um homem sobre um dos caixas portando uma espingarda engatilhada. De acordo com a revista, alguns “comerciantes decidiram pôr fim à estação de saques a estabelecimentos de comércio alimentar”. A onde de saques teria começado em São Miguel e Itaim Paulista e se espalhado por outras regiões como Vila Prudente, Itaquera, Guaianazes, Butantã, Santo Amaro, Capão Redondo, Diadema, Carapicuíba e Itaquaquecetuba.

De acordo com um relatório do comando do II Exército, classificado como confidencial, datado de 31/10/1983, comerciantes afirmaram que os padres teriam dado a entender que "saquear para matar a fome não é crime e nem pecado"; são citados como incentivadores uma freira e os bispos Dom Angélico (Zona Leste) e Dom Cláudio Hummes (Santo André). Outra preocupação era a presença de lideranças e manipulação política. Porém, investigações indicaram que “As pilhagens são movimentos espontâneos, decorrentes de um problema de ordem social disseminado por toda sociedade”, declarou à revista Manchete o Secretário de Segurança Miguel Reale Jr. Na ocasião registrava-se a ocorrência de mais de 50 saques.

Outro fato ocorreu na manhã do dia 24/10/1983 na estação ferroviário de Ermelino Matarazzo. O atraso e a superlotação dos trens provocou um tumultos seguido de um quebra-quebra . A imprensa e os órgãos de segurança estimaram 5 mil pessoas no local, quando foi depredada a estação, três trens, duas viaturas da PM, uma do Corpo de Bombeiros e uma rádio patrulha foi incendiada. No relatório do Exército: “A massa ensandecida, após depredar os trens e a estação, partiu para o centro do bairro atacando os estabelecimentos comerciais, ônibus e - o que é mais grave - enfrentando os contingentes policiais empregados para contê-la.”. Na visão dos militares “Trata-se pois, de mais uma ação de guerrilha urbana, empregando o povo como "massa de manobra"”.

Em Itaquaquecetuba o Empório Santa Terezinha, no bairro Vila Monte Belo, no dia 26/09/1983 foi ocupado por aproximadamente 100 pessoas, sete pessoas foram presas.  No dia 28 o saque foi no Supermercado Lar. Nos tumultos em Ermelino Matarazzo foram detidas 34 pessoas, 5 foram autuadas e presas, entre elas dois moradores de Itaquaquecetuba, Rosalves, pai de 10 filhos e acusado de apedrejar a rádio patrulha, e Lindaura, moradora no bairro do Rancho Grande, acusada de participar do saque, tinha dois pacotes de doces e alguns sabonetes, inconformada com a ação policial disse que quando sua casa foi arrombada, a mesma não apareceu. Maria José, moradora no Itaim Paulista e mãe de 4 filhos, também foi presa por ter pego uma lata de óleo, café e um pacote de salsicha.

Num único dia, 29/09/1983, foram registrados três saques no Itaim Paulista, dois mercados: Hiroxima e Kadihara, e a Escola Municipal José Américo de Almeida, “onde os saqueadores levaram a merenda escolar”, conforme o Informe do SNI, de 7/12/1983. O documento relatou também saques no estado do Rio de Janeiro; conclui sobre o perfil dos participantes: “Nos saques ocorridos na Capital paulista não houve depredações. As pessoas, em sua maioria mulheres e crianças, sob uma liderança, chegavam e levavam gêneros alimentícios, sem recorrer à violência”.

Cláudio Sousa

Bibliografia

APESP DEOPS DCSE0057

BR DFANBSB V8 MIC GNC EEE 83015140

BR DFANBSB V8 MIC GNC AAA 83038458

Folha de São Paulo 25/10/1983

Luta Democrática 29/09/1983

Revista Manchete nº 1643, 15/10/1983

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Vila Japão

O bairro Vila Japão, localizado entre a rodovia Alberto Hinoto (antiga Estrada de Santa Isabel) e a rodovia Ayrton Senna, tem sua origem na década de 1920, no antigo bairro do Corredor.

No ano de 1925 o Sítio Corredor, herdado de José Antonio de Almeida e sua mulher, foi vendido por escritura pública, datada de 8 de julho, pela quantia de 59:474$850, quase sessenta contos de réis. Os vendedores: Salvador Leite de Camargo e sua mulher, Antonio José de Almeida, Maria José de Almeida, Claudino José de Almeida, Bendito José de Almeida e Elyseu Rodrigues de Oliveira; com exceção dos dois últimos, moradores de Santa Isabel, os demais residiam no distrito de Itaquaquecetuba. Os compradores eram Sebastião Corain e Joaquim Gonçalves Ramos Filho. A área total do Sítio Corredor era de 396.499 m². Na descrição das divisas está o ribeirão do Una, terras de Klabin e Irmãos, além de que o imóvel era atravessado pela estrada de Santa Isabel, recém aberta pelo governo do estado.

Itaquaquecetuba Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB)

Tomamos conhecimento do loteamento de parte da área por meio de uma carta, com data de 20 de maio, de Margaret Dyer Townsend ao seu marido, o cientista estadunidense Charles H. T. Townsend (estou escrevendo um artigo sobre o cientista), escrita aproximada entre 1925 e 1926:

“O Sr. Corain vendeu todos os lotes da terra que comprou do outro lado da loja a 2$000 por metro. Vendeu quase todos aos japoneses e eles têm uma grande placa "Villa Japon". Ele trouxe um monte deles aqui no domingo para nadar. Um grupo bem vestido. As crianças disseram que um deles tinha uma ferida no coração, recentemente curada - um grande corte! Talvez possamos arranjar-lhes um bom cozinheiro japonês quando tivermos um monte de coisas boas para cozinhar.

Segundo consta, todo os camaradas do Sr. Corain o deixou exceto um - não se sentem seguros do seu dinheiro. Ele pagou no domingo passado, pela primeira vez em três meses. Antonio Hernandez tinha trabalhado lá primeiro para ele e recebeu o seu primeiro dinheiro no domingo passado. Penso que ele deve conseguir assim manter os seus homens, pois certamente uma Companhia como essa deve ter dinheiro.”

A família Townsend conhecia Sebastião Corain. A informação sobre a insegurança dos investidores indica um problema que ocorrerá em seguida. Apesar da venda dos lotes para famílias japonesas, origem do nome do bairro Vila Japão, houve atraso no pagamento das parcelas. Em 1929 os vendedores entraram com ação judicial por não terem recebido todas as parcelas do negócio, previsto para ser pago em 5 parcelas semestrais. Declararam ter recebido a primeira parcela de dez contos de réis e parte da segunda.

Sebastião Corain e Joaquim Gonçalves nomearam, por meio de procuração, Hermenegildo Rodrigues Pereira “para a venda do imovel hypothecado, todo loteado e arruado, com a denominação de ‘Villa Japão’, podendo assignar as escripturas dos lotes vendidos, receber dinheiro e dar quitação aos compradores”. Considerando os pagamentos o juiz excluiu a área de 165.019 m², penhorando 231.480 m².

Sebastião Corain nasceu em 1899, era filho de um rico industrial estabelecido na cidade de São Paulo. Aos 15 anos, num anúncio ofereceu-se para trabalhar, declarando ter prática em escritório, falar inglês e conhecer um pouco de italiano e francês. Aos 18 anos viajou para os Estados Unidos, onde tirou diploma de piloto de avião. Em 1954 o engenheiro Sebastião Corain aparece nas páginas dos jornais com um remédio para a cura do câncer; mas o pó preto era apenas carvão, sem nenhum efeito no tratamento do câncer.

Nas plantas arquivadas na Prefeitura de Itaquaquecetuba, há o loteamento Vila Japão, sem data, propriedade da empresa Chácaras União (na capa da pasta 102 consta: loteamento não aprovado); que se estendia até a atual Rua Rio Tietê (hoje bairro Jardim Nova Itaquá), que começa em frente ao Hospital Santa Marcelina, identificada na planta como rua F e Estrada Velha. Esse traçado é o da antiga Estrada de Jacareí, aberta em 1845, que começava em Itaquaquecetuba. Ou seja, na Rua Rio Tietê, era o início da antiga estrada de Jacareí, que emendava com a estrada de São Bento. Na mesma planta não tem a ferrovia, o ramal Variante de Parateí, que só foi construído na década de 1940, ligando Itaquaquecetuba a São José dos Campos.

Vila Japão (1945) - Estrada de Santa Isabel. Construção
do Ramal Variante de Parateí (Aroldo de Azevedo)

Outra planta, sem data, trata do desmembramento e loteamento de parte da Vila Japão, propriedade de Ernesto Perpétuo, com área de 83.759 m².

A terceira planta com o nome Conjunto Habitacional Jardim Japão é de 1985. Localizado entre as Ruas São Miguel, São Roque, São Judas Tadeu e o ribeirão Una; com área total de 19.121 m². Propriedade da empresa FAT – Comércio e Construções Ltda.

Fachada Residencial - Conjunto Habitacional
Jardim Japão (1985)

Por fim, nos processos de desapropriação para a construção do Rodoanel Leste, um deles, de 2012, se refere a Sebastião Corain e Júlia Corain “objetivando a desapropriação de uma área de 157,29m², situada na Rua São Miguel, nº 195, Vila Japão, Itaquaquecetuba/ SP”.

Cláudio Sousa

Bibliografia

Carta de Margaret Dyer Townsend (incompleta, faltam as duas páginas iniciais), 20 de maio (Tradução Enedina S. Guimarães), Acervo Angelo Guglielmo

Correio Paulistano 15/10/1929

DJSP 19/12/2016

Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba – Secretaria de Planejamento


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Dia do Professor


A data de 15 de outubro remete ao ano de 1827. Neste ano, a Assembleia Geral (equivalente ao Congresso Nacional) aprovou e o governo imperial promulgou a Lei de 15 de Outubro de 1827, que “Manda crear escolas de primeiras letras em todas as cidades, villas e logares mais populosos do Imperio”. Tratava-se da primeira lei geral sobre a educação no Império do Brasil, criando a Escola Primária ou “Cadeira de Primeiras Letras”.
No caso da Freguesia de Itaquaquecetuba, a Cadeira de Primeiras Letras para os Meninos só foi criada em 1849. O primeiro professor foi João Vicente de Brito Junior. Já a Cadeira de Primeiras Letras para Meninas, seria criada apenas em 1870. Maria Custódia da Rocha foi a primeira professora.
Cláudio Sousa – Historiador
 
BR-ALESP PR49.029
LEI N. 11, DE 21 DE MARÇO DE 1849.
Vicente Pires da Mottá, Presidente etc. Artigo Unico.  Ficam creadas cadeiras de primeiras letras para o sexo masculino na freguezia do Embaú, municipio de Lorena, e na da Itaquaquecetuba no de Mogi das Cruzes : revogadas as disposições em contrario.

LEI N. 28
O Juiz de Direito Antonio Candido da Rocha, Presidente da Provincia de S. Paulo, etc., etc. Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléa Legislativa Provincial decretou, e eu sanccionei, a seguinte Lei:
Art. 1.° - Ficão creadas cadeiras de primeiras letras para o sexo masculino:
(...)
§ 2.° - Cadeiras de primeiras letras para o sexo feminino: na Freguezia da Senhora da Ajuda de Itaquaquecetuba ; na de Boquira, na Villa de Brotas ; e no porto da Ribeira de Iguape, municipio de Iguape.
Art. 2.° - Revogão-se as disposições contrarias.
(...)
Publicada na secretaria do Governo de S. Paulo, aos vinte e tres dias do mez de Março de mil oitocentos e setenta.
(Fonte: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo)

terça-feira, 23 de abril de 2019

Escravidão: uma “Carta de Liberdade”

Histórias de Itaquaquecetuba, agora tem uma coluna no Jornal Gazeta Regional. Nesta edição, analisamos uma carta de Alforria registrada no Cartório de Itaquaquecetuba, em 1872.

Gazeta Regional edição 277 (completa)
Portal do Jornal Gazeta Regional (coluna)